As gasolineiras do Sol Nascente: fabulação, etnografia e utopia em Mato seco em chamas – uma conversa com Adirley Queirós e Joana Pimenta
Resumo
A paisagem do cinema brasileiro contemporâneo encontrou em Mato seco em chamas (2022) uma de suas expressões mais radicais e inventivas. A obra, codirigida por Adirley Queirós e Joana Pimenta, situa-se no epicentro de uma convulsão histórica nacional —a ascensão da extrema-direita com Jair Bolsonaro e a pandemia de Covid-19. No entanto, o filme recusa a posição de mero observador desses eventos. Em vez disso, propõe uma fabulação bélica e distópica a partir da Ceilândia (DF), onde mulheres periféricas — as "Gasolineiras" — descobrem petróleo, refinam o combustível clandestinamente e fundam uma estrutura de poder autônoma, desafiando a hegemonia do Estado e a geografia do capital. Esta entrevista, realizada no contexto da pesquisa de doutorado "Fabulações de resistência no cinema brasileiro", captura o pensamento vivo dos realizadores sobre o método que denominam "etnografia da ficção". Diferente de uma abordagem teórica fria, a conversa revela como o filme foi esculpido pelo tempo, pelos imprevistos (como a prisão real da protagonista Léa Alves) e pela tensão constante entre o rigor cinematográfico e a urgência da vida na periferia. Adirley e Joana detalham a construção de uma "sci-fi de garagem", a apropriação de estéticas populistas (como a motociata), e a recusa em produzir um cinema que "amansa" a realidade para o consumo da classe média. O resultado é um documento sobre a ética da imagem, a política da distribuição e a invenção de futuros insurgentes na América Latina.
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